Dario Ferreira Guarita: trajetória do pioneiro que marcou Araçatuba-SP e o Noroeste Paulista
Dario Ferreira Guarita foi um dos principais protagonistas da história de Araçatuba-SP e do Noroeste Paulista, atuando como tabelião, líder rural, pecuarista, empreendedor e articulador institucional em âmbito nacional. Sua atuação reúne a formação da Fazenda Guarita, o pioneirismo na criação de gado da Raça Nelore, o associativismo rural, a participação na Revolução Constitucionalista de 1932 e a projeção da região no cenário brasileiro e internacional.
Origens familiares e formação de Dario Ferreira Guarita
Dario Ferreira Guarita nasceu em 19 de maio de 1905, filho de César Augusto Guarita e Edwiges Guarita. Ao final dos anos 1900, César Augusto Guarita, advogado e tabelião em Jaboticabal-SP, casou-se com Edwiges e o casal teve 12 filhos, entre eles Dario. A família construiu sua trajetória ligada ao direito, à atividade cartorária e, posteriormente, à agropecuária no Noroeste Paulista.
Em 1916, quando Araçatuba-SP tinha apenas oito anos de fundação, César Augusto Guarita comprou, por 2 contos de réis, 426 alqueires de terras da Fazenda Macaúbas, localizada próxima à margem direita do rio Tietê. As terras pertenciam ao engenheiro canadense Robert Todd Locke, que chegou ao Brasil em 1880 para trabalhar na implantação do ramal da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e recebeu a gleba como pagamento pelos serviços prestados. A área adquirida foi registrada como Fazenda Futuro, que, posteriormente, os sucessores passaram a chamar de Fazenda Guarita.
Dario formou-se em Direito aos 21 anos. Em março de 1927, assumiu o cargo de 1.º Tabelião e Escrivão de Araçatuba, então conhecida como “Comarca Boca do Sertão”. Em 1936, casou-se com Margarida de Almeida, com quem teve três filhos: César Luís Guarita, Sônia Helena Guarita e Dario Guarita Filho. Essa base familiar e profissional consolidou sua presença na vida pública e no desenvolvimento regional.
Fazenda Guarita e o início da atuação de Dario no campo
O primeiro ciclo sucessório da Fazenda Futuro ocorreu alguns anos após sua compra. Com o falecimento de Edwiges Guarita, César Augusto Guarita decidiu transferir a propriedade da fazenda aos 10 filhos homens, que, em sua maioria, não tinham identificação com a atividade agropastoril. A gestão da área se mostrou um desafio e, assim, em 1928, a tarefa de cuidar da gleba passou para Dario Ferreira Guarita.
Aos 21 anos, já bacharel em Direito e atuando como 1.º Tabelião e Escrivão de Araçatuba, Dario mudou-se para a cidade. A proximidade com as terras, à época localizadas no município de Araçatuba (hoje pertencentes ao território de Santo Antônio do Aracanguá-SP), levou Dario a assumir naturalmente a administração da fazenda.
A partir desse momento, ele passou a adquirir gradualmente as participações dos irmãos, transformando a antiga Fazenda Futuro na consolidada Fazenda Guarita. O perfil inovador de Dario imprimiu uma identidade moderna à propriedade, alinhando produção, manejo de pastagens e genética bovina às novas práticas da pecuária brasileira.
Pioneirismo na pecuária e introdução do gado da Raça Nelore
A trajetória de Dario Ferreira Guarita no campo se conectou diretamente ao avanço da pecuária no Noroeste Paulista. A Fazenda Guarita tornou-se referência nacional na criação de gado Raça Nelore puro de origem. Dario foi um dos pioneiros ao introduzir as primeiras matrizes e reprodutores da Raça Nelore na região por volta da década de 1940, com registros de introdução de exemplares em 1945 e, posteriormente, em 1950.
Além do trabalho com genética bovina, Dario também se destacou pela adoção de novas tecnologias de pastagem. Ele foi um dos introdutores do capim colonião nas pastagens da região, o que contribuiu para aumentar a capacidade de suporte das áreas e melhorar a produtividade das fazendas. Esse conjunto de iniciativas ajudou a modernizar a pecuária regional e colaborou para consolidar Araçatuba-SP e o Noroeste Paulista como polos importantes da pecuária de corte.
Décadas depois, a relevância da Fazenda Guarita foi registrada na obra “Fazenda Guarita 100 anos – Memória da Noroeste Paulista”, escrita pela jornalista Teté Martinho. O livro, com 207 páginas e ilustrado com fotografias históricas e atuais, celebrou o centenário da fazenda em 2016, destacando as belezas naturais, a arquitetura e o papel da propriedade como referência na criação de Raça Nelore puro de origem.
Liderança associativa e fortalecimento das instituições rurais
A atuação de Dario Ferreira Guarita não se limitou à gestão da Fazenda Guarita. Defensor do associativismo rural em um período em que esse tipo de organização ainda não tinha grande representatividade, Dario participou da criação e do fortalecimento de importantes entidades do setor agropecuário.
Ele foi fundador do SIRAN — Sindicato Rural da Alta Noroeste, com sede em Araçatuba-SP, que passou a representar os interesses dos produtores rurais da região. Além disso, ajudou a criar a Confederação Rural Brasileira e participou da fundação da Associação dos Criadores de Gado Raça Nelore. Também foi associado nº 5 da COBRAC, entidade ligada ao melhoramento genético e organização da pecuária nacional.
Ao longo da década de 1960, Dario assumiu cargos de representação em entidades industriais. Em 1965, integrou a Missão Parlamentar Brasileira que visitou a Índia e o Japão, o que reforçou sua experiência internacional e ampliou o intercâmbio técnico e comercial na área de carnes e derivados. A partir dessa atuação, Dario passou a integrar a diretoria do Sindicato da Indústria de Frios do Estado de São Paulo e o Conselho Representativo da Indústria Nacional, contribuindo para a articulação entre pecuária, indústria frigorífica e políticas públicas.
O frigorífico T. Maia e a projeção internacional de Araçatuba
A falta de infraestrutura frigorífica adequada no interior paulista levou Dario Ferreira Guarita a atuar também no setor industrial. Em 1951, após críticas ao plano nacional de localização de frigoríficos, Dario se uniu a outros pecuaristas locais e regionais para viabilizar a construção de um frigorífico em Araçatuba-SP.
Dessa mobilização nasceu o Frigorífico T. Maia, inaugurado em 1957. A empresa rapidamente se destacou pela capacidade de abate e pela qualidade da carne produzida. Em 1959, o frigorífico venceu concorrência internacional e passou a fornecer carne para as Forças Armadas dos Estados Unidos, estacionadas na Alemanha. Esse contrato projetou Araçatuba-SP e o Noroeste Paulista no cenário mundial, reforçando o papel da região como importante produtora de carne bovina.
Esse movimento empresarial integrou produção rural, processamento industrial e exportação, contribuindo para consolidar o modelo de cadeia produtiva da carne que se tornaria padrão no Brasil nas décadas seguintes.
Carreira pública, infraestrutura e desenvolvimento regional
A carreira de Dario Ferreira Guarita como 1.º Tabelião e Escrivão de Araçatuba também deixou marcas no cotidiano da cidade. Sua atuação no cartório se somou à participação em debates e iniciativas voltadas ao desenvolvimento regional. Ele apoiou e acompanhou projetos de infraestrutura ligados a órgãos como o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), a DERSA e o Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (DAESP), que impactaram diretamente o Noroeste Paulista.
Essa presença em frentes públicas e privadas fortaleceu os vínculos entre Araçatuba-SP, a malha rodoviária estadual, a aviação regional e a logística de escoamento da produção agropecuária.
Participação na Revolução Constitucionalista de 1932
O envolvimento de Dario Ferreira Guarita com a vida pública também se manifestou no campo militar. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, ele atuou como Capitão e Subcomandante do 4.º Batalhão do Regimento Nove de Julho. Nesse período, comandou o pelotão araçatubense que saiu da cidade em apoio às tropas revolucionárias paulistas.
O livro “Fazenda Guarita 100 anos – Memória da Noroeste Paulista” registra essa participação, destacando que Dario se afastou temporariamente dos negócios da fazenda e das atividades cartorárias para se dedicar ao movimento constitucionalista. Essa experiência marcou sua trajetória e, anos depois, rendeu homenagens e condecorações relacionadas à Revolução de 1932.


Missões diplomáticas, indústria e articulação nacional
A experiência acumulada no campo, no associativismo rural e na vida pública levou Dario Ferreira Guarita a participar de importantes missões diplomáticas e empresariais. Em 1952, ele integrou missão econômica brasileira que contribuiu para a atração de grandes indústrias internacionais ao país, como Volkswagen, Brown Boveri, Mannesmann, Sulzer, Ciba e Bayer.
Essas articulações ajudaram a reforçar a industrialização brasileira no pós-guerra e aproximaram o setor agropecuário de cadeias industriais mais complexas. Dario atuou, assim, como elo entre o interior paulista e decisões de alcance nacional, ampliando o protagonismo econômico do Noroeste Paulista.
Homenagens, reconhecimento e memória em Araçatuba-SP
Ao longo de sua vida, Dario Ferreira Guarita recebeu diversas homenagens. Entre elas, destacam-se:
- Medalha Comemorativa do Cinquentenário da Revolução Constitucionalista de 1932
- Medalha Comemorativa do Centenário de Nascimento de Joaquim Batista Ferreira, concedida pela Câmara Municipal de Jaboticabal-SP
- Título de Cidadão Araçatubense, outorgado pela Câmara Municipal de Araçatuba em 1981
Na sessão solene em que recebeu o título de Cidadão Araçatubense, Dario mencionou a frase atribuída a um líder indígena norte-americano: “Enterrem meu coração na curva do rio”, evidenciando sua ligação afetiva e histórica com Araçatuba-SP e com as margens do rio Tietê, próximas à Fazenda Guarita.
Dario aposentou-se em 14 de julho de 1968 e passou a residir em São Paulo-SP. Apesar da mudança, manteve o vínculo com Araçatuba e com a região Noroeste Paulista. Faleceu em dezembro de 1985, deixando extensa trajetória ligada ao direito, à pecuária, ao associativismo e ao desenvolvimento regional.
Em 1991, o governo paulista eternizou seu nome ao reinaugurar o aeroporto da cidade com a denominação “Aeroporto Estadual Dario Ferreira Guarita”. O equipamento público, símbolo de mobilidade, modernização e conexão regional, representa de forma concreta o estilo de vida dinâmico e a visão de futuro associadas à figura de Dario.



Fazenda Guarita, continuidade familiar e memória regional
A história de Dario Ferreira Guarita se entrelaça com a evolução da Fazenda Guarita ao longo do século XX. Em 2016, a propriedade completou 100 anos sob a mesma família, fato considerado raro no contexto brasileiro. A quinta geração, representada pelos netos de Dario Guarita Filho e seus irmãos, segue vinculada à fazenda, que permanece viabilizada em suas áreas de atuação.
O livro “Fazenda Guarita 100 anos – Memória da Noroeste Paulista”, escrito por Teté Martinho após dois anos de pesquisa, entrevistas e organização de acervo fotográfico, recebeu apoio da Lei Rouanet e patrocínio da D. Carvalho. A obra foi distribuída gratuitamente em eventos de lançamento e doada para bibliotecas públicas, escolas e universidades de Araçatuba-SP, Santo Antônio do Aracanguá-SP, Birigui-SP, Guararapes-SP, Valparaíso-SP e Jaboticabal-SP.
Ao revisitar o processo de formação e desenvolvimento da propriedade, a obra também resgata parte da trajetória de Dario Ferreira Guarita, evidenciando como sua atuação contribuiu para o crescimento da região e para o fortalecimento da pecuária no Noroeste Paulista.
Importância histórica de Dario Ferreira Guarita para Araçatuba e o Noroeste Paulista
A vida de Dario Ferreira Guarita reúne, em uma mesma biografia, elementos centrais da história de Araçatuba-SP e do Noroeste Paulista: a expansão da fronteira agrícola; a formação de grandes propriedades rurais; o avanço da pecuária de corte; o surgimento de entidades de classe do campo; a industrialização da carne; a participação em movimentos cívicos como a Revolução de 1932; e a inserção da região em agendas nacionais e internacionais.
Como tabelião, fazendeiro, líder associativo e articulador institucional, Dario ajudou a transformar a realidade local, projetando Araçatuba e sua região além das fronteiras municipais. Seu nome, presente na Fazenda Guarita, nas instituições que ajudou a fundar e no Aeroporto Estadual Dario Ferreira Guarita, segue associado à memória do desenvolvimento regional, ao pioneirismo na pecuária e ao fortalecimento da identidade do Noroeste Paulista.





















0 comentários