Fausto Perri: trajetória do educador e líder intelectual em Araçatuba-SP
Fausto Perri teve papel central na história da educação e da vida intelectual de Araçatuba-SP, contribuindo para a formação de gerações de estudantes, para o fortalecimento do ensino comercial e para o desenvolvimento cultural da região Noroeste Paulista.
Nascido na Itália e radicado no Brasil ainda na infância, o professor Fausto Perri construiu em Araçatuba-SP uma carreira sólida como educador, administrador escolar, empresário do setor gráfico e livreiro, articulador cultural e, mais tarde, dirigente na área bancária em São Paulo-SP. Sua atuação à frente da Escola Técnica de Comércio D. Pedro II e do Ginásio Araçatubense marcou de forma duradoura a história educacional da cidade.
Origem, infância e formação de Fausto Perri
Fausto Perri nasceu em 14 de janeiro de 1914, em Cosenza, na Itália, filho de Gaetano Perri e Rosana Casale Perri. Ainda no primeiro ano de vida, acompanhou a família na migração para o Brasil. Pouco tempo depois, o núcleo familiar retornou à Itália, onde permaneceu até 1921, em um contexto de intensas movimentações migratórias entre Europa e América.
Em 1921, com o falecimento de Gaetano Perri, a mãe e os filhos decidiram fixar residência definitivamente no Brasil, estabelecendo-se em São Carlos-SP. Na cidade, Fausto Perri iniciou e consolidou sua formação escolar. Estudou no Colégio Dante Alighieri e, posteriormente, na Escola Técnica de Comércio, concluindo sua formação em 1931, em um momento em que o ensino comercial ganhava importância no país.
Essa base educacional voltada à área de comércio e contabilidade preparou o jovem Fausto para atuar em instituições de ensino e para participar de forma ativa da vida econômica e cultural das cidades em que viveria.
Chegada a Araçatuba-SP e início da trajetória educacional
Após concluir os estudos em São Carlos-SP em 1931, Fausto Perri mudou-se para Araçatuba-SP, então uma cidade jovem, em processo acelerado de urbanização e crescimento, impulsionado principalmente pela ferrovia e pela atividade agropecuária. Nesse período, suas irmãs já residiam na cidade, o que facilitou a transição e a integração ao novo ambiente urbano.
Em 1933, Fausto Perri tornou-se sócio do cunhado Joaquim Dibo na Faculdade de Comércio D. Pedro II, instituição voltada à formação em áreas comerciais e administrativas. Atuou inicialmente como secretário e professor de contabilidade, unindo a experiência técnica adquirida em São Carlos-SP ao contexto educacional em expansão no Noroeste Paulista.
A instituição evoluiu e passou a se chamar Escola Técnica de Comércio D. Pedro II, ampliando sua oferta de cursos e o alcance regional. Em paralelo, criou o Ginásio Araçatubense, que se consolidou como referência no ensino secundário da cidade.
Escola Técnica de Comércio D. Pedro II e Ginásio Araçatubense
Em 1938, Fausto Perri assumiu o cargo de diretor administrativo da Escola Técnica de Comércio D. Pedro II, enquanto Joaquim Dibo permaneceu como diretor-geral. Essa organização administrativa permitiu que a instituição se estruturasse de forma profissional e se tornasse um dos centros educacionais mais importantes de Araçatuba-SP.
O prédio histórico, localizado entre as ruas Carlos Gomes e Regente Feijó, abrigou tanto a Escola Técnica de Comércio D. Pedro II quanto o Ginásio Araçatubense. O espaço tornou-se referência na formação de jovens da cidade e de municípios vizinhos da região Noroeste Paulista. A escola oferecia cursos de:
Esses cursos atendiam à demanda de uma economia em transformação, que exigia profissionais com formação técnica, capacidade administrativa e domínio de procedimentos de escritório. Assim, a instituição preparou estudantes para atuar em escritórios, casas comerciais, bancos, empresas rurais e órgãos públicos.
Além do ensino formal, a escola se destacou pelas atividades esportivas. A quadra, constantemente movimentada por treinos e campeonatos, integrava alunos e comunidade, reforçando o papel da educação física e do esporte na formação dos jovens. Ao longo das décadas, a Escola Técnica de Comércio D. Pedro II e o Ginásio Araçatubense formaram parte significativa da elite cultural, social, econômica e política de Araçatuba-SP.
Durante o período de obras do Colégio Estadual e Escola Normal de Araçatuba, futuro Instituto de Educação Manoel Bento da Cruz, suas aulas funcionaram temporariamente nas dependências da Escola Técnica de Comércio D. Pedro II. Essa parceria reforçou a centralidade da instituição dirigida por Fausto Perri na infraestrutura educacional da cidade.
Atuação profissional, intelectual e empresarial
Ao longo de sua carreira, Fausto Perri ampliou de forma consistente sua atuação para além da sala de aula. Registrou-se no Ministério da Educação como professor de Contabilidade, Ciências Naturais, Matemática, Inglês e Desenho. A partir de 1944, seu nome passou a constar oficialmente no Registro de Professores e Auxiliares da Administração Escolar, o que atesta sua qualificação e sua inserção no sistema educacional brasileiro.
Participou de inúmeros congressos de ensino comercial, acompanhando debates pedagógicos e as transformações do ensino profissional no país. Essa participação refletiu o esforço em atualizar metodologias e conteúdos, mantendo a Escola Técnica de Comércio D. Pedro II alinhada às demandas educacionais da época.
Ao mesmo tempo, Fausto Perri integrou o meio intelectual e cultural de Araçatuba-SP. Em sociedade com Joaquim Dibo, o médico Dr. Augusto Simpliciano Barbosa e o jurista Dr. Arlindo Raposo de Mello, tornou-se proprietário do jornal “A Comarca” e da Livraria e Tipografia Bandeirantes. Esses empreendimentos fortaleceram o circuito de imprensa, livros e impressão na cidade, colaboradores importantes na difusão de ideias, na circulação de notícias e na formação de opinião na região.
A atuação conjunta na educação, na imprensa e no setor gráfico consolidou um ambiente favorável à vida cultural e ao debate público. Desse contexto, surgiram alunos e profissionais que ganhariam projeção, como o jornalista e escritor Almir Rodrigues Bento (1918–1945), ex-aluno da instituição e autor do livro “O Estranho Idioma”, obra dedicada a Joaquim Dibo e a Fausto Perri.
Vida pessoal, cidadania brasileira e participação social
Em 1943, Fausto Perri casou-se com Josefina Barbosa Perri, com quem teve três filhos: Eduardo, Marcelo e Roberto. A família manteve vínculos profundos com Araçatuba-SP, especialmente por meio da atuação de Fausto no campo educacional e na vida associativa.
Em 1948, optou formalmente pela cidadania brasileira, em um momento de reorganização institucional no país após o fim do Estado Novo e a redemocratização. A naturalização consolidou a ligação de Fausto Perri com o Brasil e, em particular, com a cidade que acolheu sua trajetória profissional.
Além da atuação escolar, participou da vida social de Araçatuba-SP, com presença constante no Araçatuba Clube desde a fundação da entidade. O clube funcionou como espaço de sociabilidade, encontros, eventos e articulações da sociedade local, reforçando os laços do educador com diversos setores da comunidade.
Transição para São Paulo-SP e atuação no setor bancário
Em 1968, por razões familiares, Fausto Perri desligou-se da Escola de Comércio D. Pedro II, encerrando um longo ciclo de dedicação direta à educação em Araçatuba-SP. Nesse mesmo ano, mudou-se para São Paulo-SP, onde iniciou uma nova fase profissional, ligada ao setor bancário e à educação corporativa.
Na capital, passou a atuar no Banco do Estado de São Paulo (BANESPA). Nesse contexto, idealizou a Caixa Beneficente dos Funcionários do BANESPA (CABESP), entidade criada para oferecer assistência e benefícios aos empregados do banco. Assumiu o cargo de diretor administrativo da CABESP, permanecendo na função de 1968 até 1981. A experiência administrativa adquirida em Araçatuba-SP contribuiu para a organização da estrutura da Caixa Beneficente.
Além disso, Fausto Perri dirigiu o Colégio Comercial Brasileiro, vinculado à primeira instituição brasileira de educação bancária. Dessa forma, manteve sua ligação com o ensino, agora orientado à formação de profissionais do sistema financeiro, em sintonia com a crescente importância do setor bancário no cenário econômico nacional.
Sua trajetória combinou, ao longo de mais de quatro décadas, educação formal, organização institucional, gestão administrativa e participação em entidades voltadas ao desenvolvimento profissional.
Impacto de Fausto Perri para Araçatuba-SP e Noroeste Paulista
A atuação de Fausto Perri em Araçatuba-SP ocorreu em um período de consolidação da cidade como polo urbano e econômico da região Noroeste Paulista. A Escola Técnica de Comércio D. Pedro II e o Ginásio Araçatubense contribuíram diretamente para a formação de profissionais que atuaram em escritórios, casas comerciais, cartórios, escolas, empresas rurais, bancos e repartições públicas.
Ao oferecer cursos de Contabilidade, Datilografia e Taquigrafia, a instituição respondeu à necessidade de qualificação técnica em uma cidade que ampliava a infraestrutura urbana, o comércio e os serviços. Dessa forma, colaborou para o fortalecimento do ambiente empresarial e para o desenvolvimento administrativo da região.
A presença de um jornal como “A Comarca” e de uma livraria e tipografia, sob a sociedade de Fausto Perri com outros líderes locais, também ampliou o repertório cultural da cidade. O acesso a livros, jornais e impressos contribuiu para o debate público, para a formação de leitores e para a circulação de ideias em Araçatuba-SP e em municípios próximos.
A participação de Fausto Perri em congressos de ensino comercial e sua inserção em redes educacionais e profissionais fortalecem a compreensão de seu papel como articulador entre práticas locais e discussões nacionais sobre educação e trabalho.
Homenagens e preservação da memória de Fausto Perri
Vitimado por uma doença, Fausto Perri faleceu em São Paulo-SP em 30 de novembro de 1981. Anos depois, o município de Araçatuba-SP prestou homenagem ao educador ao denominar uma unidade escolar como Escola Municipal de Educação Básica Professor Fausto Perri, localizada no Jardim Alvorada. A escolha do nome para uma escola pública reforça o reconhecimento de sua trajetória no campo da educação.
A homenagem traduz o vínculo entre sua atuação histórica e a continuidade do compromisso com o ensino na rede municipal. Ao preservar seu nome em uma instituição de educação básica, Araçatuba-SP mantém viva a memória de um dos protagonistas de sua história educacional, reforçando a importância de registrar, lembrar e difundir a trajetória de educadores que ajudaram a estruturar a cidade e a região Noroeste Paulista. a memória de um dos protagonistas de sua história educacional, reforçando a importância de registrar, lembrar e difundir a trajetória de educadores que ajudaram a estruturar a cidade e a região Noroeste Paulista.























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