Luís Fernando de Arruda Ramos: trajetória do engenheiro, empresário e líder político em Araçatuba
Luís Fernando de Arruda Ramos, conhecido como “Luís Fernando da Lomy”, foi engenheiro civil, empresário da construção civil e liderança política de Araçatuba, no Noroeste Paulista. Nascido em 1970, em Araçatuba-SP, destacou-se pela fundação da Lomy Engenharia, pela atuação na habitação popular em diversas cidades da região e pela candidatura à Prefeitura de Araçatuba em 2016. Morreu aos 47 anos, em 28 de maio de 2017, em acidente aéreo no município de Coxim-MS.
A trajetória de Luís Fernando de Arruda Ramos reúne origem simples, formação técnica sólida, expansão empresarial na construção de moradias populares, investimentos na hotelaria e agropecuária, além de participação ativa na vida política e comunitária de Araçatuba e do Noroeste Paulista.
Origem familiar e primeiros anos em Araçatuba
Luís Fernando de Arruda Ramos nasceu em 1970, em Araçatuba-SP, filho de Antônio Ramos e Olga de Arruda Santa Ramos. Cresceu em bairro de rua de terra, em ambiente familiar de classe média trabalhadora, com forte valorização da educação. O pai atuava como professor de educação física, e a mãe, como professora do ensino fundamental, o que influenciou diretamente a disciplina de estudos e a preocupação com o futuro profissional.
Frequentou o ensino médio em escolas da cidade, entre elas o Colégio Ângulo, onde conheceu aquela que seria sua esposa, Rogéria Souza Ramos. Os dois estudaram na mesma turma do colegial, iniciaram o namoro no terceiro ano e consolidaram uma relação que o acompanharia por toda a vida adulta. O casal teve dois filhos, um menino, Lucas, e uma menina, Luísa.
Ainda na adolescência, Luís Fernando iniciou sua vida profissional. Aos 17 anos, trabalhou em uma papelaria no centro de Araçatuba, tirando cópias em máquina de xerox enquanto concluía o ensino médio. Esse primeiro emprego, simples, marcou sua postura de poupança e planejamento, pois ele destinava parte do salário à aplicação em caderneta de poupança na Caixa Econômica Federal.


A primeira casa e a vocação para a engenharia
Com 17 anos, Luís Fernando concretizou o primeiro passo de sua futura trajetória na construção civil. Utilizando as economias do trabalho na papelaria e materiais reaproveitados da reforma da casa do sogro, construiu sua primeira casa popular em um terreno no bairro Umuarama, em Araçatuba.
O sogro, que reformava a residência da família na Rua Cussy de Almeida, permitiu que ele utilizasse telhas, janelas e outros materiais retirados da obra. Com isso, Luís Fernando ergueu uma pequena casa, simples, mas planejada, que funcionou como laboratório prático de engenharia e como base para sua escolha profissional definitiva.
Esse episódio aproximou ainda mais seu cotidiano da construção civil e consolidou a ideia de cursar Engenharia Civil, mesmo diante da expectativa do pai de que ele permanecesse em Araçatuba para estudar Direito na Faculdade Toledo de Araçatuba.
Estudos e trajetória em São Paulo
Após o ensino médio, Luís Fernando mudou-se para a cidade de São Paulo, ainda com 17 anos, para cursar Engenharia. Inicialmente, cogitou Engenharia Elétrica, influenciado pelo irmão, que já estudava na capital, mas optou por Engenharia Civil, em função da afinidade com construção e do vínculo criado com a primeira casa que havia erguido em Araçatuba.
A mudança representou uma ruptura emocional significativa com a família. Ele costumava relatar a dificuldade das despedidas na rodoviária de Araçatuba e o impacto do momento em que o pai levou, em uma Kombi, os móveis que materializaram a transferência definitiva para São Paulo.
Durante o período universitário, Luís Fernando conciliou diferentes atividades para complementar a renda familiar e custear os estudos. Entre essas atividades, destacam-se:
- Estágio em empresa de engenharia, atuando em obras de alto padrão;
- Plantões noturnos como porteiro no próprio prédio onde morava, em escala de folga do zelador;
- Trabalho em oficina mecânica de um cunhado na Praça Dom Pedro, reformando carros para revenda em feirões de fim de semana.
O estágio remunerado foi realizado na empresa Pécara Human Engenharia, especializada em empreendimentos de alto padrão em bairros como Perdizes e Itaim, na capital paulista. Nessa construtora, participou de projetos de edifícios residenciais para clientes de grande porte econômico, como empresários ligados à Coca-Cola regional, à rede Zelo e à indústria Alcoa. A experiência em obras sofisticadas ampliou sua visão técnica, organizacional e financeira da construção civil.
Ao longo de aproximadamente 13 anos em São Paulo, Luís Fernando concluiu a graduação, estruturou a vida conjugal, acompanhou a carreira bancária da esposa — que se transferiu do Banco Real de Araçatuba para a função de gerente na Avenida Paulista — e amadureceu o projeto de, em algum momento, retornar a Araçatuba.
Fundação da Lomy Engenharia e início da trajetória empresarial
A fase empreendedora começou em abril de 2000, com a criação da Lomy Engenharia, em São Paulo, em sociedade. A empresa iniciou de forma modesta, sem sede fixa, com a documentação guardada no porta-malas de um Uno cedido pelo pai de um dos sócios, realizando reformas em apartamentos e escritórios até alugar uma sala no bairro do Paraíso. Desde o início, Luís Fernando tinha o plano de acumular experiência na capital e, no momento oportuno, transferir a empresa para Araçatuba, onde pretendia criar os filhos e atuar no mercado imobiliário regional.
Retorno a Araçatuba, expansão no Noroeste Paulista e Minha Casa, Minha Vida
O retorno efetivo a Araçatuba ocorreu por volta de 2001, quando Luís Fernando direcionou o foco da Lomy Engenharia para o interior, motivado pelo menor custo dos terrenos, pela demanda reprimida por moradias populares e pela possibilidade de empreender em escala com habitação financiada. As primeiras obras foram três casas no bairro Nova York e dez na Rua Oscar Rodrigues Alves, que já seguiam o modelo de conjuntos financiados, integrados ao tecido urbano e voltados a famílias de baixa e média renda. Com a expansão contínua, a empresa tornou-se uma das principais construtoras da região e, em 2016, passou a integrar o ranking ITC entre as 70 maiores construtoras do Brasil.
A atuação de Luís Fernando consolidou-se na habitação popular ligada ao programa Minha Casa, Minha Vida, voltado a famílias de zero a dez salários mínimos. Ele destacava que o programa facilitou a composição de renda, ampliou prazos, reduziu juros, simplificou a comprovação de renda e concentrou na construtora quase todo o trâmite, deixando ao mutuário basicamente a assinatura no banco. Em Araçatuba, de cerca de 2.000 casas do programa, aproximadamente 1.500 foram construídas pela Lomy Engenharia. No Noroeste Paulista, a empresa executou centenas de unidades em Mirandópolis, Dracena, Assis, Birigui e outros municípios, somando milhares de moradias, além de empreendimentos como o Residencial Beatriz, com 472 unidades na região do bairro São José.


Urbanismo, vazios urbanos e impacto na malha da cidade
Um aspecto marcante da atuação de Luís Fernando foi a prioridade em ocupar vazios urbanos, evitando empurrar conjuntos habitacionais para áreas periféricas isoladas. A Lomy Engenharia buscava terrenos bem localizados, próximos a polos de emprego e serviços, como o Residencial Habiana e Residencial Delta Park, e em bairros com grandes glebas ociosas entre loteamentos implantados. O Jardim Atlântico, atrás do Residencial Delta Park, tornou-se referência: antes com características rurais e pastagens, passou a contar com cerca de mil casas habitadas, integrando-se de forma mais orgânica à cidade.
Na visão de Luís Fernando, cada conjunto habitacional bem planejado resolvia três problemas ao mesmo tempo: o do empreendedor, que obtinha retorno financeiro; o da cidade, que preenchia vazios urbanos e aproveitava melhor a infraestrutura; e o do mutuário, que deixava o aluguel para morar em casa própria bem localizada. Esse modelo ajudou a redesenhar trechos do perímetro urbano de Araçatuba e de outras cidades do Noroeste Paulista, ampliando o acesso à moradia e fortalecendo o mercado regional da construção civil.
Diversificação: hotelaria e agropecuária
Além da construção civil, Luís Fernando diversificou seus investimentos em Araçatuba e em outros estados. No setor de hotelaria, adquiriu e iniciou a revitalização do tradicional Hotel Gaspar, no centro de Araçatuba, considerado um dos primeiros hotéis da cidade. O projeto incluía reforma profunda e ampliação, preservando a localização central e ressignificando o edifício como empreendimento moderno.
Posteriormente, também assumiu o Hotel Plaza Araçatuba, reforçando a presença do grupo no segmento de hospedagem e contribuindo para a requalificação da região central.
Na agropecuária, mantinha fazendas e propriedades rurais em diferentes pontos do país, como:
- Propriedade em Porto Esperidião- MT;
- Área rural na região de Camapuã- MS;
- Sítios e fazendas na região de Lavínia-SP e arredores de Araçatuba.
Essas atividades incluíam criação de gado e produção agropecuária, complementando a base econômica vinculada à construção civil.
Perfil pessoal, gestão e relação com colaboradores
Em depoimentos e entrevistas, Luís Fernando de Arruda Ramos destacava alguns traços pessoais que orientavam sua conduta:
- Lealdade nas relações profissionais e políticas;
- Presença constante nos canteiros de obra, supervisionando diretamente as atividades;
- Celular ligado permanentemente, com esforço para retorno de ligações de clientes e parceiros;
- Postura de proximidade com funcionários, considerando-se “mais pai do que patrão”.
Reconhecia, por outro lado, a ansiedade como um de seus defeitos, especialmente ligada à busca por resultados rápidos. Em relação à vida pessoal, demonstrava forte apego à família e declarava arrependimento por, em certos períodos, ter passado menos tempo com os filhos e a esposa, em razão do ritmo intenso de trabalho.
Como pai, participava ativamente do cotidiano, acordando o filho Lucas, preparando o café da manhã, levando-o à escola e acompanhando sua rotina. Em relação à filha Luísa, ainda bebê à época da entrevista, compartilhava os cuidados com a mãe, Rogéria.
Participação política e candidatura em Araçatuba
A atuação política de Luís Fernando teve início ainda na juventude, em ambientes estudantis, como diretórios, centros acadêmicos e comissões de formatura. Posteriormente, integrou conselhos municipais e participou do Sindicato da Indústria da Construção Civil (SINDUSCON), fortalecendo sua inserção institucional.
Em Araçatuba, filiou-se ao PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e tornou-se presidente municipal da legenda. A partir dessa posição, passou a ser cotado para compor chapas nas eleições locais.
Nas Eleições Municipais de 2016, candidatou-se a prefeito de Araçatuba pelo PTB. No pleito, obteve 37.787 votos, equivalentes a 38,69% dos votos válidos, ficando em segundo lugar. O eleito foi Dilador Borges (PSDB), com 58.190 votos.
Antes da definição da candidatura própria, Luís Fernando participou de negociações entre PT e PTB que previam, em nível estadual, composição de chapa com vice-prefeito indicado pelo PTB. Nessa conjuntura, chegou a ser apontado como pré-candidato a vice-prefeito na chapa de Cido Sério (PT), mas, diante da ausência de formalização do acordo, consolidou a candidatura majoritária pelo próprio partido.
Em entrevistas, defendia como principais eixos de um eventual governo municipal:
- Desburocratização da máquina pública;
- Agilidade na análise de projetos e processos;
- Governança baseada em ética e legalidade;
- Fortalecimento da união regional entre cidades do Noroeste Paulista.
Mesmo após a derrota eleitoral, manteve diálogo institucional com a administração eleita. Em 2017, participou de eventos públicos ao lado do prefeito Dilador Borges, como a entrega de unidades habitacionais do Residencial Porto Real 2, quando foi elogiado por mutuários e reconheceu o apoio da nova gestão aos empreendimentos iniciados.
O acidente aéreo em Coxim-MS
A trajetória de Luís Fernando de Arruda Ramos foi interrompida de forma abrupta em 28 de maio de 2017, um domingo. Na data, ele retornava de uma de suas fazendas em Porto Esperidião-MT para Araçatuba, a bordo de um avião bimotor Piper Aircraft, modelo PA-34-220T Seneca V, prefixo PT-WPD, ano 1998.
A aeronave, com capacidade para dois tripulantes e quatro passageiros, decolou por volta das 9h30 (horário local, 10h30 em Brasília). O voo seguia em direção ao interior paulista quando, sobre a região de Coxim-MS, testemunhas relataram ter ouvido um barulho incomum e visto o avião voando baixo.
A queda ocorreu em área rural da Fazenda Siriema, a cerca de 25 quilômetros da área urbana de Coxim-MS. Segundo o Corpo de Bombeiros local, o chamado foi registrado às 11h47. O bimotor teria atingido árvores durante tentativa de pouso de emergência, caiu e pegou fogo, ficando completamente destruído. Os dois ocupantes morreram carbonizados.
As vítimas foram:
- Luís Fernando de Arruda Ramos, 47 anos, engenheiro civil, empresário, casado, pai de dois filhos;
- Fábio Jansem Pinho, 36/37 anos, piloto conhecido como “comandante Fabinho”, também casado e pai de dois filhos.
Documentos encontrados entre os destroços auxiliaram na identificação inicial. O CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) enviou equipe para apurar as causas do acidente. À época, as reportagens indicavam que a aeronave estava regularizada junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com Certificado de Aeronavegabilidade válido até 20 de julho de 2017 e Inspeção Anual Mecânica com vencimento em 30 de março de 2018.
Luto em Araçatuba e reconhecimento regional
A notícia da morte de Luís Fernando de Arruda Ramos teve ampla repercussão em Araçatuba e no Noroeste Paulista. Na noite do próprio domingo, a assessoria da Lomy Engenharia divulgou nota oficial informando o falecimento do empresário e do piloto Fábio Pinho, com detalhes sobre o voo, o acidente e os procedimentos de velório e sepultamento.
O prefeito Dilador Borges decretou luto oficial de três dias em Araçatuba. As repartições públicas mantiveram o expediente normal, mas as bandeiras foram hasteadas a meio mastro. Em nota, o chefe do Executivo municipal afirmou que “Araçatuba perdeu um grande empresário”, ressaltando que se tratava de um homem jovem, com grandes projetos para a cidade.
A então vice-prefeita Edna Flor também manifestou pesar, expressando solidariedade à família. Prefeitos e lideranças de outras cidades da região, como Penápolis, divulgaram mensagens destacando o papel de Luís Fernando na construção civil regional, sua visão otimista e a capacidade de motivar equipes de trabalho.
O velório de Luís Fernando ocorreu na Loja Maçônica 21 de Abril, na Rua Euclides da Cunha, 2.415, em Araçatuba, com grande presença de familiares, amigos, funcionários e moradores beneficiados pelos empreendimentos habitacionais. O piloto Fábio Pinho foi velado na Funerária Cardassi, na Avenida Saudade, 701. Ambos foram sepultados no Cemitério Parque Jardim da Luz, em Araçatuba, em 29 de maio de 2017.
Posteriormente, a Prefeitura de Araçatuba propôs denominar um residencial habitacional do programa estadual Nossa Casa com o nome de Residencial Luís Fernando Arruda Ramos, como forma de homenagear sua contribuição ao setor de moradia popular e à cidade.
Legado para Araçatuba e o Noroeste Paulista
O legado de Luís Fernando de Arruda Ramos em Araçatuba e na região do Noroeste Paulista se manifesta em diferentes dimensões. Na construção civil, sua atuação à frente da Lomy Engenharia ampliou de maneira expressiva a oferta de moradias populares financiadas, com milhares de unidades em Araçatuba, Birigui, Mirandópolis, Dracena, Assis e outros municípios.
No urbanismo, seus projetos ocuparam vazios urbanos estratégicos, integrando novos bairros à malha já existente e aproximando famílias de serviços, empregos e equipamentos públicos. Na economia local, a empresa gerou postos de trabalho diretos e indiretos em canteiros de obras, escritórios técnicos, comércio de materiais e serviços associados.
Na esfera pública, sua candidatura à Prefeitura de Araçatuba em 2016 e a atuação como presidente do PTB municipal inseriram sua figura no debate sobre desenvolvimento urbano, habitação, gestão pública e integração regional, reforçando a presença de empresários locais na política institucional.
A vida de Luís Fernando de Arruda Ramos, iniciada em 1970 em Araçatuba e encerrada em 28 de maio de 2017, em Coxim-MS, permanece ligada à história recente da cidade e do Noroeste Paulista, sobretudo pela combinação entre empreendedorismo na habitação popular, investimentos na requalificação urbana e participação ativa na vida pública regional.


























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