Aureliano Valadão Furquim: prefeito de Araçatuba-SP, “Cidade do Asfalto” e “Terra do Boi Gordo”
A trajetória de Aureliano Valadão Furquim em Araçatuba-SP reúne urbanização, política, direito, educação e pecuária, transformando o município em referência regional e consolidando os apelidos de “Cidade do Asfalto” e “Terra do Boi Gordo” no Noroeste Paulista.
Aureliano Valadão Furquim: origem, família e formação em Direito
Aureliano Valadão Furquim nasceu em 5 de outubro de 1901, na Fazenda Piraju, no município de Cravinhos-SP, região de Ribeirão Preto. Era filho de Raul Furquim, político e empreendedor, e Domnina Valladão Furquim, pertencente a uma família com forte ligação com atividades rurais e com a vida pública.
Formou-se em Direito na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), uma das principais escolas de formação de quadros políticos e jurídicos do país. Essa base jurídica e institucional orientaria sua atuação posterior em Araçatuba-SP, tanto como administrador público quanto como articulista e memorialista.
Em 1930, já instalado em Araçatuba-SP, casou-se com Zoraide Dória Furquim (Zoraide Angrisani Doria). O casal teve seis filhos: Luiz Dória Furquim, Carmen Lia Furquim Angrisani, Raul Furquim Neto, Thaís Dória Furquim, Eliana Furquim Martins Ferreira e Aureliano Valadão Furquim Filho, consolidando raízes familiares profundas na cidade.


Chegada a Araçatuba-SP e primeiros anos de atuação
Em 1926, atendendo também a incentivo do pai, Raul Furquim, que possuía fazendas na região onde hoje se localizam Murutinga do Sul-SP e Guaraçaí-SP, Aureliano Valadão Furquim chegou a Araçatuba-SP. Naquele momento, o município era o último grande centro urbano antes das propriedades rurais da família, em uma área impulsionada pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e pela abertura de novas frentes agrícolas.
Inicialmente, Valadão administrou propriedades rurais da família e atuou como advogado. Rapidamente se destacou na vida local, exercendo funções como:
- promotor interino;
- tabelião, à frente do primeiro cartório de Araçatuba-SP;
- presidente do Araçatuba Clube, entidade social de grande relevância na época.
Esse conjunto de atividades o aproximou da elite econômica e política, ao mesmo tempo em que o colocou em contato com diferentes camadas sociais, criando as bases para sua futura liderança política.
Participação na Revolução Constitucionalista de 1932
A trajetória de Aureliano Valadão Furquim ultrapassou os limites municipais ainda antes de seu primeiro mandato. Em 1932, ele participou da Revolução Constitucionalista de 1932, movimento liderado por São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, em defesa de uma nova Constituição e da ordem democrática.
Essa participação reforçou seu prestígio político e sua imagem como defensor das instituições, da organização administrativa e da autonomia dos entes federativos. Posteriormente, esses princípios apareceriam com força em sua atuação no Movimento Municipalista Paulista e na defesa da maior autonomia para os municípios brasileiros.
Primeiro mandato: interventor municipal (1938–1941)
A carreira política de Aureliano Valadão Furquim ganhou novo impulso no final da década de 1930. Nomeado interventor municipal pelo governador Adhemar de Barros, durante o governo de Getúlio Vargas, ele administrou Araçatuba-SP de 29 de setembro de 1938 a 24 de julho de 1941.
Naquele período, enfrentou:
- conflitos fundiários, ligados à expansão urbana e às disputas de terras;
- instabilidade política, típica dos anos do Estado Novo;
- necessidade de organizar uma cidade em rápido crescimento.
Mesmo nesse contexto, promoveu um programa de modernização urbana, reorganização do traçado das ruas, criação de praças, implantação de serviços essenciais e, principalmente, introdução do asfalto, que mudaria a imagem de Araçatuba-SP em todo o Estado.
A “Cidade do Asfalto”: pioneirismo na pavimentação urbana
Durante o primeiro mandato, Aureliano Valadão Furquim implantou o asfaltamento urbano em Araçatuba-SP, que se tornou a primeira cidade do interior paulista a contar com ruas asfaltadas, depois da capital.
Em 20 de fevereiro de 1939, foi inaugurado o asfalto na Praça Rui Barbosa, em frente ao Banco Comercial, inspirando-se na experiência da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo-SP, então asfaltada na gestão do prefeito Prestes Maia. Até aquele momento, as ruas eram de paralelepípedos.
A opção pelo asfalto:
- evitou os altos custos de paralelepípedos que viriam de Itu-SP;
- trouxe uma tecnologia mais moderna e confortável;
- reduziu problemas de depressões e manutenção nas vias;
- atraiu a atenção de prefeitos de outras cidades, como Presidente Prudente-SP e Santa Cruz do Rio Pardo-SP, que visitaram Araçatuba-SP para conhecer o sistema e, depois, adotaram a pavimentação em seus municípios.
Com isso, Araçatuba-SP passou a ser reconhecida em todo o Estado como “Cidade do Asfalto”, título que simboliza o pioneirismo urbano e o espírito de modernização associado a Aureliano Valadão Furquim.
Obras estruturantes: estádio, praças, água e esgoto
O relacionamento estreito com o governador Adhemar de Barros também gerou investimentos relevantes. Em 6 de julho de 1939, durante visita do interventor estadual a Araçatuba-SP, Aureliano Valadão Furquim obteve recursos que permitiram:
- a ampliação da rede de água e esgoto;
- o alargamento da Avenida da Saudade para 16 metros;
- a construção do Estádio Municipal de Araçatuba, inaugurado em 1940;
- a abertura e urbanização de inúmeras praças públicas.
Entre as principais praças ligadas à sua gestão estão:
- Praça Getúlio Vargas;
- Praça João Pessoa (500 anos);
- Praça Diogo Júnior;
- Praça São Joaquim;
- Praça São João;
- Praça Olímpica;
- Praça Tóquio.
Essas intervenções ajudaram a consolidar o traçado urbano e a oferta de espaços públicos de convivência, marcando a paisagem de Araçatuba-SP até os dias atuais.
Rádio Cultura: primeira emissora de Araçatuba-SP
No campo da comunicação, Aureliano Valadão Furquim também liderou uma inovação. Até então, Araçatuba-SP contava apenas com um sistema de alto-falantes na região da Praça Rui Barbosa. Em 7 de setembro de 1939, sob sua orientação, entrou no ar a primeira emissora de rádio do município: a Rádio Cultura (PRI-8).
A emissora:
- tornou-se o primeiro meio de comunicação de grande alcance na cidade;
- ampliou o acesso a notícias, música e informações;
- funcionou como espaço de articulação política e cultural.
Posteriormente, o empresário Nicolau Fares adquiriu as ações da rádio e tornou-se seu único proprietário. A emissora, mais tarde conhecida como Cultura AM, foi a primeira rádio da região e passou a operar como Viva FM em 30 de julho de 2018, após a migração das estações AM para FM.
Biblioteca Municipal e organização urbana
Outra frente importante do primeiro mandato foi a educação e a cultura. Em 15 de novembro de 1940, Aureliano Valadão Furquim inaugurou a Biblioteca Municipal de Araçatuba, com a presença do político, escritor e jornalista Rubens do Amaral, que posteriormente daria nome ao espaço. Até então, a cidade contava com poucas bibliotecas e acesso restrito a livros.
No planejamento urbano, ele também corrigiu um problema estrutural: ruas abertas sem cruzamentos, deixadas por administrações anteriores. Valadão passou a priorizar o traçado com interseções adequadas, por entender que a cidade cresceria muito e exigiria fluidez no tráfego de veículos e pedestres.
Movimento Municipalista Paulista e liderança regional
Em 1947, já sob o regime democrático e com retorno das eleições diretas, Aureliano Valadão Furquim concorreu à Prefeitura de Araçatuba-SP pelo voto popular, mas foi derrotado por Joaquim Geraldo Corrêa (Zizinho).
Mesmo fora do Executivo, assumiu papel central no Movimento Municipalista Paulista, criado em Araçatuba-SP em 1948. Esse movimento defendia:
- maior autonomia política dos municípios;
- repartição mais justa de recursos financeiros;
- fortalecimento da gestão local.
A atuação de Valadão no municipalismo extrapolou o âmbito regional e contribuiu para o debate nacional sobre o papel dos municípios na federação brasileira.
Segundo mandato como prefeito (1952–1955)
Eleito pelo voto popular, Aureliano Valadão Furquim voltou à chefia do Executivo municipal em 1º de janeiro de 1952, encerrando o mandato em 31 de dezembro de 1955. Nessa gestão, teve como vice-prefeito Mário Lino.
Durante o segundo mandato:
- consolidou obras de infraestrutura iniciadas anteriormente;
- ampliou ações em educação e apoio a instituições de ensino;
- manteve intensa articulação política, com apoio de governadores como Lucas Nogueira Garcez;
- negociou projetos urbanísticos estratégicos, como a Avenida Brasília, em parceria com o comendador Elíseo Gomes de Carvalho, da Imobiliária Paulista, e proprietários de terras entre a Avenida Luiz Pereira Barreto e a estrada principal (atual Rodovia Marechal Rondon).
Diferentemente do período em que atuou como interventor, agora ele precisava conviver com uma Câmara Municipal ativa, o que gerou choques entre Executivo e Legislativo, já que Valadão estava acostumado a administrar sem a necessidade de negociações políticas formais.
Exposição Agropecuária e a “Terra do Boi Gordo”
No campo da economia e da identidade regional, Aureliano Valadão Furquim teve papel decisivo na transformação do antigo Concurso de Bois Gordos em um grande evento público. Até então, o concurso era restrito a poucos criadores de gado e havia tido apenas três edições.
Valadão incluiu o concurso no calendário oficial do município, com apoio da Prefeitura de Araçatuba-SP e do governo estadual. O evento evoluiu para a Exposição Agropecuária de Araçatuba (Expô), que se tornou:
- uma das maiores feiras pecuárias do país;
- referência obrigatória para o setor de gado de corte;
- importante motor para o comércio local e para o turismo de negócios.
Com esse protagonismo, Araçatuba-SP consolidou a imagem de “Terra do Boi Gordo”, expressão que, somada à “Cidade do Asfalto”, deu forma a uma identidade urbana e agropecuária ao mesmo tempo.
Carnaval de rua, cultura popular e comunicação
Durante o segundo mandato, Aureliano Valadão Furquim também incentivou o carnaval de rua em Araçatuba-SP. Ele organizou:
- roteiros de ruas para os desfiles;
- cordões de isolamento e esquema de trânsito;
- concursos de Rei Momo, Rainha do Carnaval, blocos e escolas de samba, com prêmios em dinheiro.
Um dos grandes destaques do período foi o Rei Momo Edson Caburiti, conhecido como “Bolinha”, que mantinha o Serviço de Alto-Falantes Cacique desde o início da década de 1950. Anos depois, Bolinha atuou na Cultura AM, produziu o disco “Astros de Amanhã” e tornou-se um dos apresentadores populares mais conhecidos da televisão brasileira, sempre com passagem marcante pela história cultural de Araçatuba-SP.
Vereador de Araçatuba-SP (1956–1960) e fim da carreira política
No último ano de seu segundo mandato na Prefeitura, sem possibilidade de reeleição, Aureliano Valadão Furquim optou por disputar uma cadeira no Legislativo. Ele foi eleito vereador pela sigla PDC (Partido Democrata Cristão) para o mandato de 1956 a 1959.
Na Câmara Municipal de Araçatuba:
- continuou defendendo urbanização planejada;
- reforçou o apoio à educação e às instituições locais;
- manteve posição firme em temas ligados à autonomia municipal.
Após o término do mandato, decidiu não concorrer mais a cargos eletivos, encerrando a carreira na política partidária.
Atuação com terras, artigos e debate histórico
A partir de 1941, ao deixar o cargo de interventor pela primeira vez, Aureliano Valadão Furquim intensificou sua relação com as propriedades rurais. Utilizou conhecimentos de urbanismo para investir na arborização e ornamentação de sua chácara e fazendas, sem abandonar atividades administrativas e públicas.
Com o tempo, entretanto, alguns negócios com terras não obtiveram o resultado esperado, o que contribuiu para um certo distanciamento da política institucional. A partir de 1974, ele passou a publicar 225 artigos no jornal “A Comarca”, consolidando-se também como articulista e memorialista.
Nesses textos, discutiu temas polêmicos, como:
- a origem do nome “Araçatuba”, defendendo que não derivaria apenas da presença de pés de araçá, mas de uma corredeira do Rio Tietê denominada em tupi “araçatybo”;
- a data de fundação de Araçatuba-SP, sustentando que o ano correto seria 1912, com o primeiro loteamento, e não 1908, que seria apenas a instalação de um vagão de pernoite da ferrovia.
Essas teses questionavam a versão oficial e apontavam uma leitura crítica sobre decisões anteriores da Câmara Municipal, especialmente da legislatura de 1956–1960, que fixou 1908 como data de fundação para vincular o cinquentenário ao período em que os próprios vereadores estavam em exercício.
Honrarias, títulos e reconhecimentos
Ao longo das décadas, a trajetória de Aureliano Valadão Furquim recebeu diversas homenagens em Araçatuba-SP:
- Na legislatura de 1973–1976, a Câmara Municipal concedeu-lhe o título de Cidadão Araçatubense, por iniciativa do vereador Jorge Napoleão Xavier.
- Em 9 de julho de 1982, ele recebeu uma medalha em homenagem ao Dia do Soldado Constitucionalista, em solenidade na Escola Estadual Joubert de Carvalho, com entrega feita por Milton Freire, então vereador.
- Em 1980, ao lado de Zoraide, comemorou bodas de ouro, reunindo a família em Araçatuba-SP.
- Uma rua do Bairro Umuarama recebeu o nome de Aureliano Valadão Furquim, perpetuando sua memória na malha urbana que ajudou a construir.
Morte de Aureliano Valadão Furquim e memória em Araçatuba-SP
Aureliano Valadão Furquim faleceu em 17 de julho de 1987, aos 85 anos, em Araçatuba-SP. Na noite anterior, em 16 de julho, deitou-se ao lado da esposa Zoraide, encerrando simbolicamente uma vida dedicada à cidade, à família, à política e ao direito.
A repercussão de sua morte foi ampla:
- o jornal “A Comarca” destacou na manchete:
“Morre o ex-prefeito Valadão Furquim, uma das reservas morais de Araçatuba”; - o também ex-prefeito Sylvio José Venturolli afirmou que “Valadão fez 50% do que existe de permanente na cidade”, reconhecendo a dimensão de seu legado.
Nos discursos, artigos e homenagens que se seguiram, Aureliano Valadão Furquim passou a ser lembrado como:
- intelectual, pela formação jurídica e produção de artigos;
- administrador público, à frente de duas gestões fundamentais para a urbanização;
- memorialista e articulista, pela interpretação crítica da história local;
- figura central no desenvolvimento urbano e cultural de Araçatuba-SP.
Ao registrar sua trajetória, o Memorias.me – Museu Digital da Memória Regional preserva a história de um personagem que ajudou a transformar um núcleo ferroviário em cidade asfaltada, polo educacional e “Terra do Boi Gordo” no Noroeste Paulista, integrando infraestrutura, pecuária, cultura e debate institucional no projeto de cidade que marcou o século 20 em Araçatuba-SP.


























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