O Conflito na Fazenda Jangada em 1923

por Marco Cenci | 01/07/2026 | MEMÓRIAS | 0 comentários

A Disputa pelas Terras do Aguapehy e o Embate Político com

A história do é marcada por intensos conflitos agrários, e um dos episódios mais emblemáticos envolveu o influente líder . Em 1923, uma acalorada troca de acusações públicas revelou os bastidores da violenta disputa pelas terras do Rio Aguapeí, expondo a tensão entre coronéis, advogados e a polícia na região de .

Quem foi ?

Primeiramente, é fundamental entender a figura central dessa polêmica. Nascido no Rio de Janeiro em 30 de junho de 1875 e falecido em São Vicente em 17 de maio de 1929, foi um advogado e empreendedor de grande relevância histórica. Conhecido como o "plantador de cidades", ele se destacou como um dos maiores colonizadores do interior de . Além disso, foi o 12º prefeito de e o 7º de , exercendo enorme influência política e econômica, o que lhe rendeu homenagens, como dar nome a um município e a uma importante rua em .

O Rio Aguapeí (ou "Rio Feio")

Historicamente, o Rio Aguapeí também era muito conhecido pelo nome de Rio Feio. Esse apelido vinha da sua cor naturalmente mais escura e de suas águas profundas, cheias de galhos e curvas sinuosas no meio da mata fechada.

Ele é um dos rios mais importantes do Noroeste e do Oeste Paulista. Suas nascentes ficam na região de Gália e Garça (perto de Marília) e ele corre em direção ao oeste por centenas de quilômetros até desaguar no gigantesco Rio Paraná, bem na divisa com o estado de .

Onde ficavam as "Terras do Aguapehy"?

As "Terras do Aguapehy" compreendiam a grande bacia hidrográfica e as margens desse rio. Geograficamente, essa região ficava localizada exatamente no "espigão" divisor entre os rios Tietê e Aguapeí, estendendo-se ao longo do que hoje conhecemos como a Nova Alta Paulista e a região Noroeste.

Na prática, na época em que a carta foi escrita (1923), aquela área abrangia os sertões que ficavam "abaixo" dos trilhos da , descendo de municípios como:

Por que a região era tão disputada em 1923?

Até o início do século XX, os vales do Rio Aguapeí eram habitados por populações indígenas nativas (principalmente os povos ) e cobertos por uma densa floresta tropical. À medida que a avançava e novas frentes pioneiras ligadas à pecuária e ao cultivo de café chegavam de Minas Gerais e do leste paulista, aquelas terras férteis tornaram-se o alvo principal de grandes fazendeiros, grileiros e loteadores (como o próprio citado na carta).

Como muitas escrituras e posses de terra daquela época eram confusas, sobrepostas ou inventadas, a região do Rio Aguapeí acabou se transformando em um cenário violento de conflitos armados e disputas judiciais intensas pelos alqueires de mata que estavam sendo derrubados para dar lugar às fazendas de café e pastagens.

Hoje em dia, parte do trecho final desse rio e de suas ricas várzeas — conhecido historicamente como o "Pantaninho Paulista" — é totalmente protegido pelo Parque Estadual do Aguapeí, preservando um pedaço daquela mesma natureza selvagem que o advogado encontrou em sua viagem há mais de um século.

O Contexto dos Conflitos no

Durante a década de 1920, a região de , e vivenciava uma intensa expansão agrícola e ferroviária. Consequentemente, essa corrida pelo progresso gerou violentos conflitos de terra, invasões e as famosas "questões de sesmarias". Nesse cenário turbulento, as terras do Rio Aguapeí tornaram-se palco de disputas sangrentas entre posseiros, latifundiários e forças do Estado.

A Crise na e a Acusação

O estopim do embate ocorreu quando veio a público, no início de abril de 1923, para denunciar o que chamou de interferência de "advogados políticos". Segundo ele, esses profissionais estariam perturbando as sindicâncias e investigações oficiais do governo sobre os conflitos fundiários no Aguapeí. Dessa forma, a declaração atingiu diretamente os advogados que atuavam na defesa de trabalhadores e proprietários envolvidos nas disputas, gerando uma imediata reação na imprensa da capital.

A Defesa de em

Por causa dessas declarações, o advogado publicou uma carta de resposta no , em 3 de abril de 1923. Em primeiro lugar, ele rejeitou veementemente o rótulo pejorativo de "advogado político". Ele argumentou que, embora exercesse atividade política, sua atuação no caso foi estritamente técnica e jurídica. Além do mais, ressaltou que jamais utilizou sua investidura para pressionar juízes ou tribunais, elogiando a incorruptibilidade da justiça paulista.

A Verdade Sobre a Viagem a e

Para esclarecer os fatos, Moreira detalhou os motivos de sua ida ao interior. Anteriormente, ele havia sido procurado em seu escritório pelo , que relatou um crime grave. Praças da polícia haviam assassinado dois trabalhadores na , em . Como resultado desse episódio, outros operários foram presos e levados para . Portanto, o advogado viajou com a missão exclusiva de defendê-los e garantir suas libertações.

Logo após chegar a , o advogado conseguiu libertar e , empregados da fazenda que estavam incomunicáveis na cadeia local. Em seguida, partiu para para colher depoimentos e registrar um protesto judicial em favor dos proprietários da . Por fim, para provar que não obstruiu a justiça, Moreira relatou que viajou no mesmo trem de volta com o Dr. Cantinho Filho, delegado auxiliar enviado pelo governo. Ainda assim, manteve tamanho escrúpulo profissional que sequer questionou a autoridade sobre o andamento do inquérito, desmentindo categoricamente as acusações de .

A expansão do nas primeiras décadas do século XX foi impulsionada por figuras históricas de grande poder, mas também marcada por intensas disputas fundiárias. O desbravamento de matas e a chegada dos trilhos trouxeram progresso, ao mesmo tempo em que geraram conflitos violentos pelas posses de terras, especialmente na região do Rio Aguapeí. Nesse contexto, líderes políticos e grandes proprietários exerciam forte influência sobre os rumos das cidades nascentes.

Os embates não se limitavam às fronteiras das fazendas, estendendo-se aos tribunais e às páginas dos grandes jornais da época. A atuação de advogados e autoridades policiais frequentemente entrava em choque com os interesses dos coronéis locais. Consequentemente, documentos históricos, como cartas e manifestos publicados na imprensa, revelam hoje os bastidores dessas tensões, mostrando como a lei, a política e a força armada se entrelaçavam na formação de municípios como , e .

Principais figuras citadas no texto

Com base no texto da carta publicada em 1923 e nos registros históricos da Primeira República (1889–1930) na região do , veja quem foram as principais figuras citadas no documento:

1. (O Acusador)

  • Quem foi: Empresário, fazendeiro, loteador de terras e um dos políticos mais influentes do interior paulista na época. Ficou historicamente conhecido como o "plantador de cidades" por ter participado ativamente da fundação, colonização e emancipação de diversos municípios ao longo dos trilhos da (NOB).
  • Atuação: Nascido no Rio de Janeiro (1875–1929), foi o 12º prefeito de (1913) e o 7º prefeito de (1920–1921). Exerceu enorme influência política e econômica nas terras que hoje compreendem a região de e .
  • No contexto da carta: Era um dos grandes detentores de terras na região do Rio Aguapeí. Ele havia vindo a público no dia anterior acusar advogados vindos de de usar de influência política para atrapalhar investigações policiais e defender invasores ou rivais em disputas agrárias.

2. (O Autor da Carta)

  • Quem foi: Advogado criminalista e de causas cíveis estabelecido na capital paulista, além de possuir trânsito na esfera política de da década de 1920.
  • No contexto da carta: É o autor do protesto e o alvo das indiretas de . Na carta, ele se defende de forma polida, mas firme, afirmando que sua ida ao interior foi puramente profissional, contratado por um senador para libertar colonos presos ilegalmente e formalizar protestos jurídicos contra a violência sofrida por funcionários da .

3. (O Contratante)

  • Quem foi: Membro do Poder Legislativo (Senador) na época da República Velha. Naquela estrutura política, os senadores possuíam grande prestígio e atuavam como intermediários de fazendeiros locais junto às bancadas da capital e escritórios de advocacia de elite.
  • No contexto da carta: Foi quem procurou e contratou o Dr. em seu escritório em para assumir a defesa de seus aliados e intervir urgentemente após receber um telegramma relatando um atentado contra trabalhadores na , em .

4. Dr. Cantinho Filho (O Delegado de Polícia)

  • Quem foi: foi um importante e respeitado delegado de polícia da Secretaria de Segurança Pública do . Ele era pioneiro na organização de arquivos, técnicas investigativas e registros fotográficos criminais do estado, sendo enviado frequentemente pela capital para intervir como "delegado auxiliar" em graves conflitos ou crimes de repercussão no interior.
  • No contexto da carta: Foi a autoridade enviada pelo governo paulista para instaurar o inquérito e apurar as "sindicâncias" sobre as mortes e prisões ocorridas nas terras do Aguapeí. O autor da carta faz questão de ressaltar que viajou no mesmo trem que ele, mas que manteve absoluto respeito à autonomia do delegado, sem interferir no inquérito local executado em .

Os demais citados (Advogados Locais e Trabalhadores):

Íntegra da Carta de

TERRAS DO AGUAPEHY

Em publicação hontem feita, nesta folha, sob o titulo acima, allude o sr. Manuel Bento da Cruz a "advogados politicos" mandados a perturbar syndicancias procedidas por autoridades da confiança do governo. Ora, como sou politico, exerço a advocacia e fui recentemente a Biriguy e Araçatuba, quando na primeira dessas localidades procedia o sr. dr. Cantinho Filho, digno 1.o delegado auxiliar, a um inquerito policial sobre facto delictuoso occorrido em terras do Aguapehy, o qual determinara a minha viagem áquelles logares, é de suppôr que a referencia do sr. Cruz diz respeito á minha humilde pessoa. Assim, não sendo ella verdadeira, como não é, corre-me o dever de refutal-a, demonstrando a sua inteira improcedencia.

Direi, pois, em primeiro logar, que, sendo embora politico e advogado, não sou todavia "advogado politico", porque nunca jamais cuidei, nem cuidarei, louvado Deus, de advocacia politica ou administrativa, não intervindo, systematicamente, como patrono, em causas ou pleitos, cuja decisão escape á alçada do poder judiciario. Nas pendencias a que tenho emprestado a minha modesta collaboração profissional, todas de caracter estrictamente juridico e sujeitas a julgamentos nos tribunaes, nunca invoquei, para vencer, a immerecida investidura politica que accidentalmente me cabe. Aliás, seria isso, sobre inutil, ridiculo, porque, felizmente, não é a magistratura paulista das que se deixam impressionar e convencer pela só graduação politica do advogado.

Quanto á minha ida a Biriguy e Araçatuba, foi ella ditada, exclusivamente, por exigencias do dever profissional.

Ha cerca de tres mezes, tive a honra de ser procurado, em meu escriptorio, pelo sr. , o qual me pediu assumisse a defesa de pessoas das suas relações, em processo criminal a instaurar-se no juizo da 1.a vara, nesta capital. Acceitando a incumbencia, recebi a necessaria procuração para intervir no pleito, que até hoje não teve inicio, e nunca mais me avistei com o , quando, no dia 24 do mez proximo findo, á tarde, fui novamente procurado por s. exa., ainda no meu escriptorio.

Vinha trazer-me nova causa. Recebera, ha pouco, por telegramma, noticia de que praças da policia haviam assassinado dois homens que trabalhavam na fazenda "Jangada", em Araçatuba, effectuando a prisão de outros operarios da mesma propriedade. Os presos e mortos estariam em Biriguy. Pedia-mo que fosse, como advogado, a esta localidade, afim de apurar a verdade sobre a triste occorrencia, providenciando desde logo pela soltura dos presos e tomando outras medidas juridicas que ao caso se applicassem.

Annuindo eu ao convite, parti no dia immediato, 25, á tarde, não sem conferenciar previa e longamente com o illustre e respeitavel advogado que, nesta capital, defende em juizo os interesses do . No trem, tive a grata surpresa de encontrar o sr. dr. Cantinho Filho, 1.o delegado, que seguia com o mesmo destino. Juntos, pois, desembarcámos em Biriguy, na tarde do 26.

Nesta localidade me detive apenas o tempo necessario para colher algumas informações sobre os factos que alli me levaram, e para obter a soltura de dois empregados da fazenda "Jangada", e , que reclusos se achavam na cadeia local, e incommunicaveis, desde o dia 23. Tanto que obtive a libertação desses presos, o que se verificou na manhã de 27, parti para Araçatuba, pelo primeiro trem, e não mais tornei a Biriguy, onde ficou o dr. Cantinho Filho entregue aos trabalhos do inquerito que fôra instaurar. É bem de ver, portanto, que, se fosse intenção minha perturbar a marcha desse inquerito, eu não me ausentaria, como me ausentei, do logar onde o mesmo estava sendo produzido e não iria, como fui, a Araçatuba tomar outras providencias tendentes a esclarecer o caso, cuja elucidação me interessava. Em verdade, não tive nas syndicancias procedidas pelo dr. Cantinho Filho a mais leve interferencia, levando o meu escrupulo ao extremo de nem sequer interrogal-o sobre o resultado a que chegara com as suas pesquizas, quando nos encontrámos de novo, no trem, de regresso a S. Paulo, vindo elle de Biriguy e eu de Araçatuba.

Nesta cidade, onde estive desde o dia 27 até o dia 29, pela manhã, consistiu a minha acção em requerer em juizo duas justificações, com a inquirição numa dellas de seis testemunhas, e em formular um protesto judicial, que foi tomado por termo. E em todos esses passos, como é obvio, appareci no caracter de mero advogado, associando até ao meu obscuro nome os nomes dos meus distinctos collegas drs. e , que não possuem nenhuma investidura politica, e que em Penapolis e Araçatuba patrocinam os interesses dos proprietarios da fazenda "Jangada".

Ahi tem o publico, fielmente resumida, a historia, na verdade pouco interessante, da minha viagem a Biriguy e Araçatuba. Além dos actos alli discriminados nenhum outro pratiquei, nenhum, nesta capital ou alhures, no fôro ou fóra delle, que se relacione directa ou indirectamente com as terras de Aguapehy e as nobres pessoas que entre si disputam a posse dessas terras. Se, portanto, a allusão, a que fiz reparo, do sr. Manuel Bento da Cruz visa a minha apagada individualidade, segundo é de imaginar-se, carece ella inteiramente do fundamento, como deixo demonstrado.

S. Paulo, Abril, 2, 923.

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